Feminista declara que gosta de ser torturada no sexo

Quando conheci Doug em um site de relacionamentos, em 2005, nós tínhamos 26 anos e vivíamos em Washington, D.C. Os dois recém-saídos de relacionamentos sérios, os dois com uma jornada de trabalho longa em empregos que amávamos. Em nosso primeiro encontro, embora tivéssemos apenas nos beijado, ele disse que eu não seria mais a mesma quando ele fizesse sexo comigo. Eu sabia que ele estava certo – eu só não sabia o que aquilo significava. Nenhum de nós sabia.

Doug era alto, tinha olhos e cabelos escuros, mas não foi a aparência dele que me conquistou. Ele era esperto, confiante e engraçado. Nós namoramos por alguns meses e tivemos sexo intenso do tipo “baunilha” (termo usado pelo personagem Christian Grey, de “Cinquenta Tons” para descrever o sexo tradicional).Existia um magnetismo entre nós, uma atração que me consumia. Eu passei a sentir uma entranha necessidade de tê-lo, e isso o afastou de mim.
Muitos meses se passaram depois que terminamos, mas eu não conseguia tirar Doug da cabeça. Passei a ter fantasias como nunca tinha tido com outro homem: eu queria que ele me dominasse. Já tinha ouvido falar sobreBDSM — bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo, mas não sabia muito sobre o assunto. Curiosa sobre meus novos sentimentos, fiz algumas pesquisas na internet. Em um site encontrei imagens de mulheres amarradas e chicoteadas, em outro, uma menina deitada no chão respondia para um homem, de pé sobre ela, a quem ela pertencia. A resposta: ele! Tudo ficou claro, mas eu ainda me sentia confusa. Não era bizarro eu, orgulhosamente feminista, gostar de uma coisa tão degradante? Eu jamais ficaria com um homem que me maltratasse. Como podia gostar disso, então? Ainda sim, eu continuei pesquisando. Entre alguns cliques, encontrei, sem querer, o perfil de Doug. No começo, fiquei muito chocada, mas depois fez todo sentido: essa era a nossa conexão. Mandei uma mensagem: “Não sabia desse seu lado”.
“ELE ME PEGOU POR UMA MECHA DE CABELO E ME MANDOU FAZER SEXO ORAL. E EU ADOREI"
No começo, nós nos escrevemos de forma casual, nos atualizando sobre as vidas um do outro. Nosso interesse mútuo em BDSM surgiu devagar, durante trocas de e-mails e telefonemas. Ele fez uma brincadeira sobre um jeito de me fazer gritar e eu disse, confiante: “Me mostre!”.
Eu aprendi que o BDSM é mais do que sexo violento. Em um relacionamento D/s (dominante/submisso), você tem que confiar um no outro - emocionalmente, mentalmente, espiritualmente.Um Dominante, ou "Dom", tem o "poder", e ele só pode ir tão longe quanto sua submissa, ou "sub", permitir. Não é abuso, é consensual. Doug deveria escrever, "Como você se sente sobre um cinto? Confia em mim para fazer qualquer coisa com você?"
"Eu adoro fazer sexo com meu marido, mas de uma forma totalmente diferente. Doug é o meu lado escuro e meu marido é minha luz" (Foto: Divulgação)
Ele veio até em casa para tentar uma sessão de BDSM. Sentamos em sofás diferentes, um de frente para o outro, e eu estava inquieta e nervosa. Pensava: “E se eu não gostar da dor tanto quanto da ideia de sentir dor?” Então Doug levantou-se, elevando-se sobre mim, e me pegou por uma mecha de cabelo. Ele me mandou fazer sexo oral, mas só queria descobrir se eu era obediente. Ele usou um cinto, deixou vergões nas minhas costas, coxas e parte inferior. Doeu muito, mas eu estava completamente ligada. Eu não tinha controle. E eu adorei.
Depois disso, chorei, esmagada pela forma crua e repentina como tudo tinha acontecido. Nós nos encontramos mais algumas vezes para sessões semelhantes, mas Doug se afastou. Eu estava apavorada. Não pela dor, mas pela forma intensa de como eu dirigia meus sentimentos a ele.
“ELE DISSE PARA EU TIRAR MINHAS CALÇAS. E EU OBEDECI” 
Quase dois anos se passaram antes de eu vê-lo novamente. Nós tínhamos casado com outras pessoas, seguido com nossas vidas. Quando Doug mandou uma mensagem contando que estava se mudando para Boston, eu concordei em encontrá-lo para uma bebida. Disse a verdade ao meu marido, com quem partilhava uma relação muito honesta. Assim que vi Doug, senti que aquela nossa conexão obscura ainda existia. No fim do encontro, ele me acompanhou até o carro e nos beijamos. Ele disse para eu tirar minhas calças. Eu obedeci. E nós voltamos para a mesma situação de quando havíamos nos visto a última vez. Ele partiu para Boston com sua mulher na manhã seguinte. E assim, mesmo com a longa distância, a nossa relação D/s extraconjugal começou.
Com 500 quilômetros entre nós, mantivemos contato por e-mail, mensagens e Skype. Como o BDSM é muito mais que apenas sexo, Doug pode ainda ser meu Dom, mesmo de longe, concentrando-se mais no controle psicológico. Eu escrevo que estou saindo para correr, e ele me diz que não vou. Via Skype, ele me vê chegar perto de ter um orgasmo e me faz parar. Ou ele não fala comigo porque, com a distância, esse é um dos únicos jeitos de eu sentir a dor de sua decisão sobre mim.
Nós sabemos que o que estamos fazendo não é justo com nossos cônjuges, mas, felizmente, sou capaz de ser honesto com meu marido. Tivemos uma conversa há anos e concordamos em ter um casamento aberto. Eu amo meu marido - e eu adoro fazer sexo com ele, mas de uma forma totalmente diferente. Doug é o meu lado escuro e meu marido é minha luz. Para Doug que não é tão fácil. Sua mulher não tem ideia sobre esse lado dele.
Recentemente, fui até Boston para um longo fim de semana, quando a mulher de Doug estava fora da cidade. Ele chegou no meu hotel e me fez sentar nos meus joelhos, enquanto me batia com o cinto. Em um relacionamento D/s, você precisa confiar em outro ser humano de uma forma rara. Um dominador é intoxicado por alguém que está disposto a confiar muito dele. Uma submissa é intoxicada pela rendição - e não porque é fraca. Sobreviver, resistir, é uma proeza. Eu sei que é estranho, mas sinto que se posso fazer isso, consigo fazer qualquer coisa.
"Eu amo que “Cinquenta Tons de Cinza” fez as mulheres falarem mais honestamente sobre suas fantasias" (Foto: Divulgação)
“SUBMISSAS NÃO SÃO CAPACHOS. ESTAMOS APENAS EXPRESSANDO UM FETICHE QUE MUITAS PESSOAS TÊM MEDO DE COMPARTILHAR”
Doug é agora um empresário completamente conservador. Ele vive em uma casa enorme em um subúrbio de Boston, joga golfe, pilota aviões e corre maratonas (é embaraçoso e difícil admitir, mas Doug se parece muito com Christian Grey). Mas a verdade é que me sinto mal por ele. Não poderia imaginar uma vida dupla como ele faz. E eu me sinto culpada por sua mulher. No entanto, de forma egoísta, a minha principal preocupação é proteger a nós e o nosso relacionamento.
Eu amo que “Cinquenta Tons de Cinza” fez as mulheres falarem mais honestamente sobre suas fantasias, mas eu odeio que o livro perpetua a noção de que um dominador deve ser um cara confuso e misterioso para fazer esse tipo de sexo. As pessoas que não estão no mundo BDSM pensam que dominadores e submissas são pessoas vazias, sem espinha dorsal, que têm problemas com os pais.
Sou completamente alfa em casa e no trabalho. Tenho dois funcionários em tempo integral e sou uma chefe mandona. Subs não são capachos. Estamos apenas expressando lados mais escuros de nós mesmos, assim como todas as outras pessoas provavelmente têm algum fetiche, mas têm medo de compartilhar.

1 comentários:

  1. "Ele vive em uma casa enorme em um subúrbio de Boston, joga golfe, pilota aviões e corre maratonas (é embaraçoso e difícil admitir, mas Doug se parece muito com Christian Grey). "

    Ou seja, ele é rico e destacado (alfa). Se fosse um sujeito mediano isso tudo seria "degradante".

    Duplo criterio feminino.

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