Filme sobre falsa acusação que destroi uma vida

Trazido por StoneCold


Imagem

Lucas (Mads Mikkelsen) é um dos monitores de uma escola infantil de uma pequena comunidade rural na Dinamarca. Dedicado e paciente, os alunos o adoram. Todo dia de manhã, eles o aguardam por trás das árvores e dos arbustos para lhe pregar um susto. Mesmo sabendo da arapuca em que está prestes a entrar, Lucas embarca na brincadeira para o deleite da garotada. A franja que teima em cair na testa lhe dá um certo ar de criança desprotegida, que não combina com os seus 42 anos, altura imponente e óculos de intelectual. Se Lucas consegue divertir os filhos de outros pais, o mesmo não acontece com o seu próprio, Marcus (Lasse Folgelstrom), adolescente de 16 anos, a quem ele não consegue acesso por força do fim do seu casamento.

Umas das crianças da escola, Klara (Anikka Wedderkopp), parece ter uma especial afeição por Lucas. Filha do seu melhor amigo, Theo (Thomas Bo Larsen), ela percebe que é do professor que recebe a atenção que deveria naturalmente partir dos pais – que, de tanto brigarem, sequer notam as escapadelas da garota da própria casa e o seu estranho bloqueio com figuras geométricas. Querendo externar esse sentimento, Klara lhe dá um presente. Consciente das possíveis conseqüências daquele gesto, Lucas gentilmente o recusa. A estrutura emocional da menina de 6 anos não sustenta tamanha rejeição e, em troca, ela sugere à diretora da escola que Lucas a teria molestado sexualmente. A notícia se espalha pela comunidade. É o que basta para a vida do monitor virar do avesso.

Vintenberg já havia tangenciado o tema da pedofilia em Festa de Família. Lá, o protagonista aproveitava a reunião de todos os parentes para denunciar os abusos que sofrera do pai quando criança. Começava ali um dos retratos mais cruéis do esfacelamento de uma família já vistos no cinema. Mas há uma diferença essencial nos dois filmes. Em Festa de Família, o pai era realmente culpado, o que, de certa forma, nos fazia compreender a lavação de roupa suja que acompanhamos em seguida. Já em A Caça, a acusação de pedofilia é falsa. Por isso mesmo, a rejeição de Lucas pela comunidade nos causa raiva, indignação, repúdia, nojo, incompreensão. E o sentimento é potencializado ao vermos que o dedo em riste parte exatamente daqueles que, dias antes, brincavam com o mesmo Lucas nos lagos gelados da região e se fartavam ao redor de uma mesa, regada a muita bebida e camaradagem.

“As crianças não mentem”, diz a diretora da escola. Me espanta o desconhecimento de uma profissional do assunto sobre o poder de manipulação dos pequenos. Sim, as crianças mentem! E muito! Sei do que estou falando porque vivencio essa experiência diariamente com os meus filhos. Desde cedo, elas descobrem, instintivamente, o poder da simulação, da transferência da culpa e da barganha. Felizmente, a maioria dessas pequenas mentiras é inofensiva e não produz nenhuma consequência no âmbito social. No entanto, é importante que os adultos estejam atentos a esse perigoso jogo e sempre partam da premissa que as crianças, mesmo sem ter a dimensão dos efeitos do seu gesto, nem sempre estão falando a verdade.

Além disso, a investigação conduzida pela diretora da escola é um erro do começo ao fim. Não que ela não tivesse que fazer algo a respeito. A acusação – talvez a expressão nem seja a mais adequada – de Klara era grave e a diretora precisava, ao menos, sondar o ocorrido. Ela não poderia, no entanto, dar uma conotação parcial às respostas dos investigados – especialmente às da criança – e extrair conclusões diferentes daquilo do que foi realmente dito. Exemplo disso é a cena em que Klara é abordada pelo assistente social. Por mais de uma vez, Klara refuta a sugestão inicial de que teria sido molestada por Lucas. Mesmo diante destas evidências, os dois profissionais saem da reunião ainda mais convencidos da responsabilidade do professor. Com base nestas conclusões, a escola comunica aos pais das outras crianças que Lucas poderia ter molestado mais de um aluno. Não demora nada para que uma verdadeira caça às bruxas se instaure na comunidade. Vintenberg mostra que culpa antecipada que será atribuída a Lucas poderia e deveria ter sido evitada se as partes envolvidas respeitassem o protocolo exigido pela situação e, sobretudo, o devido processo legal, expressão que, como se vê, não é tão teórica como se pensa.

Imagem

0 comentários:

Postar um comentário